"Seja qual for o conteúdo do momento presente, aceite-o como se você o tivesse escolhido. Sempre trabalhe com ele, não contra ele. Torne-o seu amigo e aliado, não seu inimigo. Isso vai milagrosamente transformar toda a sua vida."
Um mestre zen estava caminhando em silêncio com um dos seus discípulos por uma trilha na montanha. Quando chegaram a um velho pé de cedro, eles se sentaram embaixo dessa árvore e fizeram uma refeição simples, com apenas de um pouco de arroz e hortaliças. Após a refeição, o discípulo, um jovem monge que ainda não descobrira a chave para o mistério do zen, rompeu o silêncio perguntando ao mestre: - Mestre, como faço para entrar no zen? Ele estava, é claro, perguntando como entrar no estado de consciência que é conhecido como zen. O mestre permaneceu em silêncio. O discípulo esperou ansiosamente por uma resposta por quase cinco minutos. Ele estava prestes a fazer outra pergunta quando o mestre falou de repente: - Está ouvindo o som daquele córrego na montanha? O discípulo não tinha notado nenhum córrego na montanha. Estivera mais preocupado em pensar sobre o significado do zen. Agora, enquanto começava a escutar o som, sua mente ruidosa se acalmou. A princípio ele não ouviu nada. Depois, seu pensamento deu lugar a um estado de alerta mais intenso e, de repente, ele ouviu o murmúrio quase imperceptível de um córrego a longa distância. - Sim, consigo ouvir agora - confirmou. O mestre ergueu um dedo e, com um olhar que de alguma maneira era ao mesmo tempo feroz e gentil, complementou: - Entre no zen por aí. O discípulo ficou perplexo. Era seu primeiro satori - um lampejo de iluminação. Ele sabia o que o zen era sem saber o que era aquilo que ele sabia! Eles prosseguiram na sua jornada em silêncio. O discípulo estava impressionado com a manifestação da vida no mundo à sua volta. Sentia tudo como se fosse pela primeira vez. Pouco a pouco, porém, começou a pensar de novo. O silêncio alerta voltou a ser encoberto pelo ruído mental, e não demorou muito tempo para que ele fizesse outra pergunta. - Mestre, estive pensando. O que o senhor teria dito se eu não tivesse sido capaz de ouvir o córrego? O mestre parou, olhou para ele, ergueu o dedo e disse: - Entre no zen por aí.
Eckhart Tolle In "O despertar de uma nova consciência", Eckhart Tolle - Editora Sextante página 154.
Ver televisão é a atividade de lazer favorita (ou melhor, a opção deinatividade) de milhões de pessoas em todo o mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, quem está na faixa dos 60 anos de idade já terá passado 15 anosdiante da tela da TV. Em muitos outros países, os índices são semelhantes. Para um número significativo de pessoas, ver televisão é algo "relaxante". Observe a si mesmo e verá que, quanto mais tempo sua atenção permanecetomada pela tela, mais sua atividade intelectual se mantém suspensa. Assim, por longos períodos você estará assistindo a atrações como programas deentrevistas, jogos, shows de variedades, quadros de humor e até mesmo a anúncios sem que quase nenhum pensamento seja gerado pela sua mente. Você não apenas deixa de se lembrar dos seus problemas como se torna livrede si mesmo por um tempo - e o que poderia ser mais relaxante do que isso? Então ver televisão cria o espaço interior? Será que isso nos faz entrar noestado de presença? Infelizmente, não é o que acontece. Embora a mente possa ficar sem produzir nenhum pensamento por um bom tempo, elapermanece ligada à atividade do pensamento do programa que está sendo exibido. Mantém-se associada à versão televisiva da mente coletiva e segueabsorvendo seus pensamentos. Sua inatividade é apenas no sentido de que elanão está gerando pensamentos. No entanto, continua assimilando ospensamentos e as imagens que chegam à tela. Isso induz um estado passivo semelhante ao transe, que aumenta a suscetibilidade, e não é diferente dahipnose. E por isso que a televisão se presta à manipulação da "opinião pública", como é do conhecimento de políticos, de grupos que defendeminteresses específicos e de anunciantes - eles gastam fortunas para nos prender no estado de inconsciência receptiva. Querem que seus pensamentos setornem nossos pensamentos e, em geral, conseguem. Portanto, quando estamos vendo televisão, nossa tendência é cair abaixodo nível do pensamento, e não nos posicionarmos acima dele. A TV tem isso em comum com o álcool e com determinadas drogas. Embora ela nosproporcione um pouco de alívio em relação à mente, mais uma vez pagamos um preço alto: a perda da consciência. Assim como as drogas, essa distraçãotem uma grande capacidade de viciar. Procuramos o controle remoto para mudar de canal e, em vez disso, nos vemos percorrendo todas as emissoras. Meia hora ou uma hora mais tarde, ainda estamos ali, passeando pelos canais. O botão de desligar é o único que nosso dedo parece incapaz de apertar. Continuamos olhando para a tela. Porém, normalmente não porque algosignificativo tenha chamado nossa atenção, e sim porque não há nada interessante sendo transmitido. Depois que somos fisgados, quanto maistrivial e mais sem sentido é a atração, mais intenso se torna nosso vício. Se isso fosse estimulante para o pensamento, motivaria nossa mente a pensar porsi mesma de novo, o que é algo mais consciente e, portanto, preferível a um transe induzido pela televisão. Dessa forma, nossa atenção deixaria de serprisioneira das imagens da tela. O conteúdo da programação, caso apresente alguma qualidade, pode atécerto ponto neutralizar, e algumas vezes até mesmo desfazer, o efeito hipnótico e entorpecedor da TV. Existem determinados programas que são de uma utilidade extrema para muitas pessoas - mudam sua vida para melhor,abrem seu coração, fazem com que se tornem mais conscientes. Há também algumas atrações humorísticas que acabam sendo espirituais, mesmo que nãotenham essa intenção, por mostrarem uma versão caricata da insensatez humana e do ego. Elas nos ensinam a não levar nada muito a sério, a permitirum pouco mais de descontração e leveza na nossa vida. E, acima de tudo, nosensinam isso enquanto nos fazem rir. O riso tem uma extraordináriacapacidade de liberar e curar. Contudo, a maior parte do que é exibido na televisão ainda está nas mãos de pessoas que são totalmente dominadas peloego. Assim, a intenção oculta da TV é nos controlar nos colocando para dormir, isto é, deixando-nos inconscientes. Mesmo assim, existe um potencialenorme e ainda inexplorado nesse meio de comunicação. Evite assistir a programas e anúncios que o agridam com uma rápidasucessão de imagens que mudam a cada dois ou três segundos ou menos. O hábito de assistir à televisão em excesso e essas atrações em particular são duas causas importantes do transtorno de déficit de atenção, um distúrbio mental que vem afetando milhões de crianças em todo o mundo. A atençãodeficiente, de curta duração, torna todos os nossos relacionamentos e percepções superficiais e insatisfatórios. Qualquer coisa que façamos nesseestado, qualquer ação que executemos, carece de qualidade, pois a qualidade requer atenção. O hábito de ver televisão com freqüência e por longos períodos não sónos deixa inconscientes como induz a passividade e drena toda a nossaenergia. Portanto, em vez de assistir à TV ao acaso, escolha os programas quedespertam seu interesse. Enquanto estiver diante dela, procure sentir a vívida atividade dentro do seu corpo - faça isso toda vez que se lembrar. De vez emquando, tome consciência da sua respiração. Desvie os olhos da tela em intervalos regulares, pois isso evitará que ela se aposse completamente do seusentido visual. Não ajuste o volume acima do necessário para que a televisãonão o domine no nível auditivo. Tire o som durante os intervalos. Procurenão dormir logo após desligar o aparelho ou, ainda pior, adormecer com ele ligado.
Eckhart Tolle
In "O despertar de uma nova consciência", Eckhart Tolle - Editora Sextante - página 199
A dimensão coletiva do corpo de dor apresenta componentes diferentes. Tribos, nações, raças, todos têm seu corpo de dor coletivo, e alguns são maispesados do que os outros. A maioria dos integrantes de cada um desses grupos participa dele em maior ou menor grau. Quase toda mulher tem sua parcela no corpo de dor feminino coletivo,que tende a se tornar ativado especialmente no período que precede a menstruação. Nessa fase, muitas mulheres são dominadas por uma intensaemoção negativa. A supressão do princípio feminino, sobretudo ao longo dos últimos 2mil anos, permitiu que o ego ganhasse absoluta supremacia na psique humana coletiva. Embora as mulheres tenham ego, é claro, ele pode enraizar-se eprosperar com mais facilidade na forma masculina do que na feminina. Isso acontece porque as mulheres se identificam menos com a mente do que oshomens. Elas estão mais em contato com o corpo interior e a inteligência do organismo, que dão origem às faculdades intuitivas. A forma feminina não seencontra tão rigidamente encapsulada quanto a masculina, tem maior abertura e sensibilidade em relação às outras formas de vida e está mais sintonizadacom o mundo natural. Se o equilíbrio entre as energias masculina e feminina não tivesseacabado no nosso planeta, o crescimento do ego teria sido limitado de modosignificativo. Não teríamos declarado guerra à natureza e não seríamos tãocompletamente alienados do nosso Ser. Ninguém tem o número exato porque não foram mantidos registros,mas acredita-se que ao longo de 300 anos entre 3 e 5 milhões de mulheresforam torturadas e mortas pela "Santa Inquisição", uma instituição fundadapela Igreja Católica Romana para reprimir a heresia. Esse acontecimento se equipara ao Holocausto como um dos capítulos mais sombrios da história dahumanidade. Bastava uma mulher mostrar amor pelos animais, caminhar sozinha nos campos ou nas florestas ou colher plantas medicinais para serconsiderada bruxa, torturada e condenada a morrer na fogueira. O sagradofeminino foi declarado demoníaco e toda uma dimensão desapareceusignificativamente da experiência humana. Outras culturas e religiões, como ojudaísmo, o islamismo e até mesmo o budismo, também reprimiram adimensão feminina, embora de uma maneira menos violenta. O papel das mulheres foi reduzido a cuidar dos filhos e da propriedade masculina. Oshomens, que negavam o feminino até dentro de si mesmos, agora comandavam o mundo, um mundo que estava em total desequilíbrio. O restoé história, ou melhor, o histórico de um caso de insanidade. Quem foi responsável por esse medo do feminino que só pode serdescrito como uma paranóia coletiva aguda? Poderíamos dizer: evidentemente, os homens foram os responsáveis. Mas então por que emmuitas civilizações antigas pré-cristãs, como a suméria, a egípcia e a celta, as mulheres eram respeitadas e o princípio feminino não era temido, e simreverenciado? O que foi que de repente levou os homens a se sentir ameaçados pelo feminino? O ego que se desenvolvia neles. Ele sabia que sóconseguiria obter o pleno controle do planeta por meio da forma masculina e, para fazer isso, tinha que tornar o feminino menos poderoso. Além disso, o ego também dominou a maioria das mulheres, emborajamais fosse capaz se de se enraizar tão profundamente nelas quanto fez com os homens. Hoje em dia, a supressão do feminino está interiorizada, até mesmo pelamaior parte das mulheres. O sagrado feminino, por ser reprimido, é sentidopor elas como uma dor emocional. Na verdade, ele se tornou parte do seu corpo de dor juntamente com o sofrimento que elas acumularam ao longo demilênios por meio do parto, do estupro, da escravidão, da tortura e da morte violenta. No entanto, agora as coisas estão mudando num ritmo muito veloz. Como muitas pessoas estão se tornando mais conscientes, o ego vemperdendo influência sobre a mente humana. Uma vez que ele nunca se enraizou profundamente nas mulheres, seu domínio sobre elas está sereduzindo mais rápido do que sobre os homens. Eckhart Tolle In"O despertar de uma nova consciência", Eckhart Tolle - Ed. Sextante - página 103