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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Uma arte, Elizabeth Bishop , Filme Para Sempre Alice

Julianne Moore em Para Sempre Alice

Num dos momentos mais emocionantes no filme "Para Sempre Alice", (Still Alice), Julianne Moore faz um discurso contando que está com Alzheimer precoce e cita o poema "Uma Arte" de Elizabeth Bishop. É lindo.
Uma Arte, Elizabeth Bishop
A arte da perda é fácil ter;
por tanta coisa cheia de intenção
de ser perdida não dá pra sofrer.
Perca algo todo dia. Perder
chaves aceite, junto com a aflição.
A arte da perda é fácil ter.


Treine perder muito sem se deter:
lugares e nomes, a comichão
de viajar. Nada fará sofrer.


Perdi jóias da mamãe. E dizer
que perdi casas que amei de paixão!
A arte da perda é fácil ter.


Perdi duas cidades. E o prazer
de um continente na palma da mão.
Sinto falta mas não dá pra sofrer.


- Até perder você (a voz, o ser
que eu amo). Não devia mentir. Não,
a arte da perda se pode ter
embora pareça (diga!) sofrer.


Elizabeth Bishop

Tradução Jorge Pontual

sábado, 1 de novembro de 2014

Eu preciso de música, Elizabeth Bishop


Eu preciso de música que flua
Por meus dedos inquietos e sensíveis,
Por meus lábios trêmulos, irascíveis,
Com melodia, lenta, clara e crua.
Ah, a doce ginga que continua,
De alguma canção que afasta o desgosto,
Uma canção como água no meu rosto,
Que me molha inteira, lavada e nua!

Há um feitiço que é da melodia:
Magia do sossego, respirar 
Calmo, que mergulha no fim do dia
Pela mansidão profunda do mar,
E flutua pra sempre no abandono,
No regaço do ritmo e do sono.

Elizabeth Bishop

Tradução de Jorge Pontual


Elizabeth Bishop nasceu em Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911 - 6 de outubro de 1979). Foi uma escritora americana, considerada um das mais importantes poetisas do século XX a escrever na língua inglesa. Em 1952, depois de uma viagem pela costa brasileira, Elizabeth encantou-se pelas montanhas de Petrópolis e lá permaneceu por longos quinze anos. Durante esse período, escreveu numerosos registros e poemas.
Enquanto vivia no Brasil, em 1956 recebeu o prêmio Pulitzer pelo livro «North & South — A Cold Spring». Receberia mais tarde o Prêmio Nacional do Livro (the National Book Award) e o prêmio nacional do círculo dos Críticos literários (the National Book Critics Circle Award) assim como duas bolsas Guggenheim e uma da Ingram Merrill Foundation. Tornou-se poeta residente na Universidade de Harvard em 1969. Começou em 1971 uma amizade íntima com Alice Methfessel que duraria até sua morte em 1979.


Em 1976, foi a primeira mulher a receber o International Neustadt Prize for Literature (prêmio internacional Neustadt de Literatura) e continua sendo o único americano a recebê-lo.


Filme Flores Raras

O filme é baseado na história de amor real entre a poetisa americana Elizabeth Bishop e arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. Ambientado em Petrópolis, dos anos de 1950 e 1960, a história coincide com o surgimento da Bossa Nova e a construção e inauguração da capital Brasília. O filme trata a história dessas duas mulheres e suas trajetórias.



Original Poem

Sonnet
I am in need of music that would flow
Over my fretful, feeling finger-tips,
Over my bitter-tainted, trembling lips,
With melody, deep, clear, and liquid-slow.
Oh, for the healing swaying, old and low,
Of some song sung to rest the tired dead,
A song to fall like water on my head,
And over quivering limbs, dream flushed to glow!

There is a magic made by melody:
A spell of rest, and quiet breath, and cool
Heart, that sinks through fading colors deep
To the subaqueous stillness of the sea,
And floats forever in a moon-green pool,
Held in the arms of rhythm and of sleep. 

Elizabeth Bishop

domingo, 31 de agosto de 2014

Uma arte, Elizabeth Bishop




A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.


Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

Elizabeth Bishop

Tradução de Paulo Henriques Brito

Elizabeth Bishop nasceu em Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911, e morreu 68 anos depois, em Boston. Foi uma autora americana, considerada um das mais importantes poetisas do século XX a escrever na língua inglesa. 
Em 1952, depois de uma viagem pela costa brasileira, Elizabeth encantou-se pelas montanhas de Petrópolis e lá permaneceu por longos quinze anos. Durante esse período, escreveu numerosos registros e poemas, como o transcrito acima.

Original poem
One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.


—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied.  It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

 Elizabeth Bishop, (1911 - 1979).

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