"É uma pena andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga." Mia Couto In: Mar me quer, Mia Couto, 8ª. ed, 2004.
"Que cada um de nós faça a sua parte para que se dê um novo reencantamento do mundo, a começar por nosso mundo interior." Mia Couto Mia Couto pseudônimo de António Emílio Leite Couto, 5 de julho de 1955 é biólogo e escritor moçambicano.
Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros. Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas. Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios. Careço da habilidade da onda, hei-de aprender a carícia da brisa. Trémula, a haste me pede o adiar da noite. Em véspera da dádiva, a faca me recorda, no gume do beijo, a aresta do adeus. Não, não aprenderei nunca a decepar flores. Quem sabe, um dia, eu, em mim, colha um jardim?
Mia Couto
(Maputo, 2006)
in "Idades Cidades Divindades" (Lisboa: Caminho) 2007, pág. 27-28 António Emílio Leite Couto (Beira, 5 de Julho de 1955), é um biólogo e escritor moçambicano. Leia mais http://pt.wikipedia.org/wiki/Mia_Couto
Não é a pedra. O que me fascina é o que a pedra diz.
A voz cristalizada, o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão de empedernidos seres que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida a pedra solteira, a que canta, na solidão, o destino de ser ilha. O poeta quer escrever a voz na pedra. Mas a vida de suas mãos migra e levanta voo na palavra.
Uns dizem na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
Mia Couto in'Idades Cidades Divindades', Mia Couto, Maputo, Ndjira, 2008. António Emílio Leite Couto (Beira, 5 de Julho de 1955), é um biólogo e escritor moçambicano. Leia mais http://pt.wikipedia.org/wiki/Mia_Couto