"Quanto mais
longe viajamos, menos conhecemos", dizia Lao-Tsé. A ideia muito
divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas,
ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual somente através
do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo tem seu
preço, imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver.
A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja -, mas a
conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho,
Nicolau de Cusa, Mestre Eckhart*, Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal,
Benet de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa
absolutamente pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro
ou pela busca incansável.
Esse é dos
capítulos fascinantes da história das religiões, e parte importante do
estudo sobre o comportamento humano. Mestre Eckhart repetia com método e
tranquilidade: "Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi
concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua divindade, mora
eternamente em sua imagem, a alma". Esse tipo de mensagem afirma,
através dos séculos, que o homem não precisa sair de onde está para
realizar-se integralmente.
Isso não sugere a morte em vida,
obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos
hiper-ativos que controlam – ou julgam controlar – a sociedade humana,
suas maravilhas e seus horrores. No "não ir a parte alguma" está
contido, apenas, o "ficar para não fugir todo tempo."
A razão pela
qual "quanto mais longe viajamos, menos conhecemos" está embutida no
fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde
estamos. Isso não se refere apenas às viagens reais, mas ao ir e vir de
cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades
que executamos com imensa gravidade. Por que ir lá aprender alguma
coisa, se recusamos todo aprendizado aqui e agora, na modéstia deste
minuto e desta circunstância?
Empreender uma
caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor
dizendo, o que só pode ser feito imediatamente, não depois, pouco
adiante ou mais tarde. Caminhar, viajar, proporcionam prazer e são em si
inofensivos. O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto, ou
naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando simplesmente de
lugar.
É
ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, a alma nobre. Calce
seus leves sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da
idolatria de si mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente
no coração de Deus, naquele coração onde estará oculta de todos". A
tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para
indicar precisamente aquilo que se obtém com “um movimento do coração”.
Essas referências hoje são mais difíceis de compreender que nunca,
porque é o século de ação e de movimento – em círculos.
Tudo o
que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse mais exato dizer:
desperta um indefinido temor toda forma de permanência. A palavra de
ordem não é inovar? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta
toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de
certezas, de decisões rápidas, de conceitos formados, de ideias prontas.
O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas, semeia
antipatias.
Viajar para
aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não
mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos,
atrás do qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o
que somos. Deixamos tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência.
Não há lugar para culpa, em tudo isso. É bastante ver o que fazemos,
quando fazemos e como fazemos.
Esse é um aprendizado
insubstituível, que não pode ser encontrado nos livros, nos museus ou
nas conferências. Não aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste
lugar aqui, onde estamos no instante em que nos surpreendemos pensando
nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está
fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com
simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração".
Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não
precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração.
Para não mudar
interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do
século XX é proverbial. As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo,
e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não
exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar.
Permanecer, como diz Caussade, para compreender.
O que parece
complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece
obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece
fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória. A
imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta
do qual não está excluída a tranqüilidade. O espírito é ágil e não
conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço.
Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente.
Apenas
a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que
pretende ser o conhecedor do mundo. E nisso tudo não há nada de
milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar
pela ultima vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma
palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste
seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".
Luiz Carlos Lisboa
*Mestre Eckhart - místico renomado do século XIV.
Fonte: O SOM DO SILÊNCIO, Luiz Carlos Lisboa. Ed. Verus. 1ª edição 2004. 116 páginas.
Luiz Carlos Lisboa (Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 1929) é um escritor e jornalista brasileiro (Jornal do Brasil e O Estado de S.Paulo).
Autor de cerca de 40 obras, entre ensaios, contos, uma trilogia (romance), traduções, cinco guias literários e livros de entrevistas com artistas e intelectuais brasileiros do nosso tempo. Ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura em 1973. Desde 1992 é membro da Academia Paulista de Letras (cadeira nº 6). Jurado, por quatro vezes, do Prêmio Esso de Jornalismo.
Lisboa reside há dezessete anos em Princeton, nos Estados Unidos da América, onde já foi correspondente de jornais brasileiros. Atualmente faz ali palestras e organiza cursos de cultura geral,inclusive os de História da Literatura e de Crítica Literária Brasileira, na Brazilian Endowment For The Arts, e lectures no City College of New York. Seu livro mais recente, O Som do Silêncio, foi traduzido pela Obelisco Ediciones de Barcelona, Espanha, e está sendo distribuído também para países de fala hispânica. Sua tradução de A Nuvem do Desconhecimento, um clássico anônimo inglês do misticismo medieval, foi publicado em 2007 pela Lótus do Saber, uma editora do Rio. Ele também traduziu as poesias e textos poéticos da editio princeps do livro "Autobiografia de um Iogue". Lisboa é autor de uma trilogia sob o título geral de "Memórias de um Gato", uma coletânea de contos ("Ante-Sala"), livros de ensaios e de artigos ("A Arte de Desaprender", "Olhos de Ver, Ouvidos de Ouvir" e "Jejum do Coração"), além de guias de leitura ("Pequeno Guia da Literatura Universal"), tendo ainda organizado quase duas dezenas de biografias de contemporâneos para a Editora Rio. Ele entregou em 2010 a uma editora de São Paulo um romance de cunho autobiográfico ("Oito Vezes Samsara"), e tem em preparo um novo romance ("Flora"), bem como um ensaio sobre a vida e a obra de Mestre Eckhart, místico renomado do século XIV.